quinta-feira, 3 de março de 2016

Evolução enfermagem: Evoluindo como enfermeiro no Québec - parte I



Olaaaaa gentemm! Belezinha?? (Ás vezes eu escrevo como eu falo, reparem não hehe)

Caros colegas enfermeiros, sentem aqui que hoje é dia de a gente começar um papo bacana, certo? Bora falar sobre a trajetória dos enfermeiros aqui no Québec? Então chega mais! Prepare um chá e ligue o notebook na tomada que o assunto é grande!

Pra começar antes de seguir tudo ao pé da letra do que vou escrever neste e no próximo post, se informe também nas fontes oficiais. "A Fabi, vc não tem certeza do que ta falando, é??" A resposta é: Sim e não! hehe!

Falando sério, o que eu vou escrever será baseado nas minhas experiências até então e do que funcionou pra mim segundo as pesquisas que eu fiz, mas como eu disse no post anterior, nada melhor do que beber direto da fonte right? Muito ajuda quem não atrapalha e eu morro de medo de acabar dando informação que acabe atrasando a vida (que já é dura no começo) dos meus colegas enfermeiros e por falar nisso, daqui a algum tempo esse post vai ficar velho e se vc estiver lendo isso em 2020, cuidado! Selo Bino de cilada*! Com certeza muito coisa terá mudado e provavelmente nada mais do que eu escrevi aqui estará valendo ainda.

Alerta realizado com sucesso, vamos começar!

Pra começar sugiro que você se faça as seguintes perguntas:

-Quero morar no Canada?

-Quero ficar no Québec?

-Estou disposta(o) a aprender françês QUÉBÉÇOIS? Sim amigos em letras garrafais pq o françês québécois é beeem diferente do françês da França tsé?* O seu um ano de intercâmbio na França te ajudará sem dúvida, mas no primeiro "faque"*, "pantoute"* ou "déguédine"* de um québécois com presa, vc vai dizer "ayoye! Não sei nada!!! ahhhhh!" Mas fiquem tranquilo amigos, não quero assustar ninguém, falo isso do françês do Québec pra que vc attache ta tuque avec de la broche*. Com estudo, paciência e bom humor tudo é possivel et tu vas finir par y arriver!*

-Quero realmente me tornar enfermeiro no Canada? (Vcs vão entender a pergunta mais pra frente)

-Tenho paciência?

-Tenho budget? Tenho como conseguir essa grana, caso não a tenha no momento?

-Estou disposta(o) a me dedicar para a equivalência e os estudos?

-E a pergunta que eu considero mais importante: Estou disposta(o) a "voltar" alguns passos pra trás na carreira?

Se a resposta for sim para a maioria das perguntas, parabéns!!! Pois mandem bala, entrem de cabeça no projeto enfermeiro(a) brazicois(e) com coraçao e mente abertos!

A resposta da primeira pergunta é facil de responder sim, sério gente, eu ja admirava o Canada de longe, morando aqui então! Não é exagero quando falam das coisas boas daqui. Claro que tem seus defeitos, e também não quero ficar esculachando o Brasil pra engrandecer o Canada (acho feio isso gente...), mas aqui é terra fértil de possibilidades, vc quer voltar aos estudos aos 60 anos? Allez-y! Vc descobriu que não quer ser enfermeiro e decidiu trabalhar no serviço de déneigement da cidade? Allez-y! Decidiu que vai trabalhar em figuração de filme? Allez-y!! Vc vai ter apoio e informação suficiente pra seguir pelo caminho que vc escolher. Brincadeiras a parte, a sensação que eu tenho é que aqui os caminhos se abrem pq é isso que uma sociedade mais igualitária te oferece: possibilidades! Todos tem acesso a segurança, apoio durante os estudos, vida digna mesmo com um baixo revenu, então isso é prato cheio pra decidir seguir pra onde te deixa mais feliz. Não se enganem, ninguém vai te dar o peixe pescado, aqui eles vão te ensinar a pescar, financiar seu barco e seu equipamento, o resto é com vc!

Segundo e terceiro ponto: Québec e françês. Porque vou tocar nessas questões? Por que ainda tem uma galera que entra na onda de que o Canada é país bilingue e acredita que se chegar com o inglês "da hora" e um françês "marromeno" da pra levar. Sim, isso é uma meia verdade. Se você for pra Montréal trabalhar no setor de serviços até vai, isso sim é possível. Mas agora se vc, meu querido colega enfermeiro, escolheu ser enfermeiro aqui nas bandas do Québec, sem escolha: tem que falar françês e se adaptar ao modo québécois de viver. A grande maioria, principalmente fora de Montréal se orgulha do seu françês, gosta do seu modo québécois de ser e cruzei com pas mal* de québécois separatistas*. Então sim, o modo de vida daqui precisa ser estudado por quem quer vir e precisa ser levado em conta na hora da decisão. O impacto dos valores e crenças de uma cultura diferente da nossa precisa ser levado MUITO em conta. Se não como fica? Fica uma eterna barreira entre vc e os québécois e ai meu caro...não rola integração, não rola adaptação, rola passagem de volta para o Brasil... Sem julgamentos de quem volta pq cada um conhece suas razões e quem ta na chuva pode se molhar (eu claro! hehe), mas segundo o serviço de pesquisas "DATAFABI" a grande parte das pessoas que acabam voltando - brasileiros ou não- é justamente por conta desse choque de valores e crenças. Hummm...é de se pensar, mesmo eu que ja cheguei aqui, penso muito nisso. Muito mesmo.

Sobre querer ser enfermeiro aqui no Québec, a resposta foi sim? Maravilha!! Primeiro passo: PESQUISEM, PESQUISEM E PESQUISEM! A equivalência é demorada e custosa. Tem piores por ai gente, os dentistas e os advogados...esses sim são processos demorados. Se vc é dentista ou advogado e está aqui fazendo equivalência, cara, me dá um abraço! Eu te admiro muito! Voltando a enfermagem (cuidado com o TDHA...), não custa avisar: Saiam do Brasil com o ok da OIIQ ou no mínimo com a certeza de que está tudo certo com relação aos documentos (que foi o meu caso). Depois que vc envia a demanda de abertura do processo e a ordem recebe toda a documentação, ela leva pelo menos 10 meses pra mandar o seu processo pro comitê avaliar e te dar uma resposta. Se toda a sua documentação demorar um ano para ser completada, acrescente mais 10 meses na conta e veja quanto tempo dá. Melhor chegar aqui já no jeito pra entrar pro Cégep do que ficar esperando agoniado a resposta (eu sou agoniada, eu ia ficar doidinha esperando a resposta daqui!). Sobre a documentação, eu vou escrever no post "Evolução de enfermagem: evoluindo como enfermeiro no Québec parte II" porque não quero ninguém dormindo em cima do notebook ou perdendo hora na manhã do dia seguinte!

Sobre ter paciência: vcs tem? Se a resposta for não (como era pra mim e ainda é as vezes hehe) tratem de aprender a ter. Imigrar é uma lição de vida, vc faz muito mais do que mudar de país e cultura. Dizer que são só essas as mudanças é superficial, a coisa é beeeem mais profunda do que parece. É preciso confrontar seus medos, seus defeitos e transpor os seus limites o tempo todo e isso...huummm é dificil. É uma oportunidade única de adquirir auto-conhecimento, é a sua chance de mudar algo em vc que vc gostaria de mudar, ou de no minimo se questionar o que seria legal ser mudado, então aproveitem!! Olha que chance? Quantos tem oportunidade de fazer esse curso na escola da vida? Poucos. Somos privilegiados, mas isso não quer dizer que seja facílimo e que não exija nenhum esforço, nananinanão grandão! Exige paciência principalmente se vc quer trabalhar na sua formação em outro país com os mesmos direitos de uma pessoa formada no local. Gente, isso não é pouca coisa, isso é algo de grandioso! Então, grandes feitos exigem grandes esforços e PACIÊNCIA.

Falando sobre bufunfa, o processo é caro por várias razões que eu vou abordar melhor no próximo post. Mas se vc quer vir pra cá, coloque naquele budget lindão que a gente faz de gastos antes de imigrar os gastos com a equivalência. Se te serve de consolo, eu ja ouvi falar numa maluca ai que casou com um cara que também é enfermeiro. Doida né? Dois processos, dois gastos a mais. Essa maluca sou eu, prazer!

Equivalência e estudos...ahh meus tempos de universidade..ralei como uma condenada, suei pelo meu diploma pra chegar aqui e estudar de novo?? Pois sim!! Levem em consideração isso também galera! Precisa, pelo simples motivo que não é moleza não senhor. O curso do cegep é puxado, porém eu estou amando, mas eu sou a pelega dos estudos, eu amo de verdade estudar (falou a nerd!) mas leve em consideração trabalhar isso na sua cabeça pra não chegar aqui e ficar agoniada(o) por tem que estudar DE NOVO. Meu maridão tem bem mais anos de experiência do que eu e a ordem decidiu que ele tem que fazer, além da integração de 8 meses, 1 mês a mais de complemento em geriatria. Vai entender. Pra nós foi bacana porque é um mês a mais de aprendizado, mas nós gostamos de estudar, lembra? Se vc não curte a idéia de estudar um pouco mais, reflita. Durante a integração é muito difícil trabalhar e viver com o bourse do prêt-et-bourses ou a ajuda do emplois Québec é possível, porém exige diversas concessões financeiras. Dependendo de como vc vivia no Brasil, isso também é um entrave no que diz respeito a adaptação. Essa questão do estudo nos leva a última mas não menos importante questão...

...Quanto de amor, apego, xodó vc tem com a sua carreira de enfermeiro no Brasil? Pois bem caro(a) futuro (a) enfermeiro(a) brazucois(e), pensez-y*. Vc tem 5 pós-graduações, 10 artigos científicos publicados, mestrado e doutorado, mas chegando aqui pode ser que vc tenha que trabalhar como preposé-aux-bénéficiaires* ou de alguma outra coisa que não o mesmo cargo que vc tinha no Brasil. Aqui vc é mais um enfermeiro estrangeiro e sim, vc vai ter que refazer toda a sua trajetoria profissional novamente com o mesmo carinho e dedicação que vc teve ao fazer no Brasil. "Ahhhh não, vc está me dizendo que nada do que eu fiz no Brasil vale no Québec??" a resposta é: não digo que sim porque dizer que toda a sua experiência e formação não valem de nada aqui é muito cruel e não é verdade. Conhecimento é conhecimento, ninguém tira de vc. A grande questão é que pra colocar em prática tudo, ou parte do que vc aprendeu no Brasil aqui no Québec, vc vai precisar ter paciência (lembram? Santa paciencia...) e muita humildade pra re-adquirir confiança, refazer seu network e experiências no mercado de trabalho québécois. E eles não estão errados. Vamos fazer um mise en situation* aqui: Imagine que vc é coordenador de enfermagem de um hospital de grande porte e está participando de uma seleção de enfermeiros pra um setor novo de UTI coronariana deste hospital. Imagina agora que vc tem 15 candidatos dentre os quais 1 é da Argentina, que nunca trabalhou no Brasil, mas tem 20 anos de carreira no seu país de origem, porém não tem como comprovar (vc nem nunca ouviu falar do hospital que ele mencionou no currículo). Ao entrevista-lo vc nota um sotaque forte e às vezes não entende perfeitamente o que ele está dizendo. Vc tem outros 14 candidatos também experientes, que trabalharam em hospitais que vc conhece a reputação e que -adivinhe só- falam perfeitamente o português. O que vc faz em uma situação como essa? Não contrata porque é argentino né gente, lógico hehehehe desculpem, não a resisti piada!

Falando sério, o que vcs fariam? Imaginou? Difícil né...Pois essa é justamente a lógica dos québécois. Aqui vc vai competir pela vaga de enfermeiros nascidos e criados aqui, com um françês ó, perfeito! Não tem jeito, a saída é começar de novo, não falo começar de baixo, porque não considero estar por baixo quando na verdade tudo isso serve de aprendizado de vida e considerando que não será assim pra sempre. Usando o mesmo exemplo do argentino, e se ele demonstrasse um real interesse em se integrar dizendo que trabalhou como voluntário na Cruz vermelha (meio irreal em se tratando de Brasil mas lembrem-se que estamos no campo da imaginação), que trabalhou como maqueiro em um hospital de grande porte pra poder conhecer um pouco sobre o funcionamento dos hospitais no Brasil e que tem um português bem falado com sotaque claro, mas que é até charmoso, as coisas não mudariam de figura? Pois bem, essa também é a lógica québécois em relação ao mercado. O que eles querem é ser conquistados, joguem o charme de vcs que é sucesso! Considerem isso como um fator bem importante na decisão de vir ao Québec trabalhar na enfermagem. Não é só de glamour de foto na neve postada no face que se faz a imigração, é também de foto no parque, nos pontos turisticos, restaurante (quando vc sair do bourses colega, não vai me gastar o dinheiro todo hein!), trabalho duro, dedicação e fé que tudo vai dar certo!

Cansei vc né? Putz o post virou um textão gigante, mas não se iluda, tem a parte II, ainda não acabou! Eba....haha! Esse assunto é complexo e não tem como falar menos que isso, ainda mais pra alguém que fala - e escreve- pouco como eu, mentira eu escrevo tanto quanto falo - muito!

Espero que tenha valido a reflexão que na verdade é uma introdução pra falar da parte mais burocrática no proximo post. Não adianta falar da parte burocrática se o espírito não estiver pronto, por que senão vc vai acabar não entendendo o porquê de fazer toooodo esse processo de equivalência. Como antes de fazer uma maratona é preciso fazer um bom alongamento, antes de pensar nas burocracias da equivalência, vale pensar sobre como se preparar mentalmente pra isso.

Por hoje é isso companheiro, vai pensando nesses pontos e se tiver algo que eu não falei aqui, escreva nos comentários, isso é uma troca e eu realmente gosto muito de conhecer diversos pontos de vista, isso me ajuda muito a refletir sobre tudo.

Até mais!


*Selo Bino de cilada: É uma cilada Bino! Clique aqui pra entender.

*Tsé: tu sais

*Faque: il faut que

*Pantoute: pas du tout

*Déguédine: dépêche-toi!

*Attache ta tuque avec de la broche: tiens-toi prêt

*Tu vas finir par y arriver: Vc vai acabar chegando la!

*Pas mal: bastante

*Québécois separatista: Aquele que quer que o Québec se separe do Canada para que ele se torne um pais independente.

*Préposé-aux-bénéficiaires: cuidador, seria o nível mais básico de cuidado no que diz respeito a enfermagem no Québec.

*Mise en situation: no contexto q eu coloquei seria como um estudo de caso.

5 comentários:

  1. Estou ansiosa pela parte II.
    Parabéns pela reflexão.
    Um abraço Raquel

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  2. Oi Fabi, obrigada pelo post. Veja se pode me ajudar...estou ansiosa com o processo que nao abre , sistema que da pau o tempo todo...e estou disposta a ir para Quebec no segundo semestre fazer um curso para contar como experiencia (ja tenho a pontuacao necessaria, o nivel de frances exigido...) Pensei em fazer um college, tem uma sugestao? Obrigada

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  3. Texto muito bacana, o melhor que li sobre o assunto neste ano! Cade a parte 2?

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  4. Super cool ! Gostei da tradução das expressões ao final :D
    Makiley

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  5. Fabi, me diz se está correto, quanto ao processo da OIIQ, eu enviei a primeira parte com meus dados pessoais na semana passada.
    Agora eu aguardo eles abrirem meu processo para só depois eu correr atrás do Coren, faculdade e empregador.
    Ou não preciso esperar eles abrir?
    Abraços

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